sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O primeiro Capítulo diz muita coisa a respeito do caráter do livro... Apresento-vos então, a primeira parte do 1º capítulo!

1. Esperanças...


A porta se abriu e a enfermeira andou em sua direção mantendo o rosto preocupado como no dia anterior.
- Por favor, me diga que ela vai melhorar – resmungou Augusto, fitando o rosto da jovem desacordada na cama, com os olhos repletos de lágrimas.
- Ela teve uma melhora significativa pela manhã, mas o seu estado ainda é grave... Não podemos afirmar nada por enquanto.
Augusto se levantou sem tirar os olhos inchados do rosto pálido da jovem. Ele estava exausto, fazia quatro semanas que ele não dormia direito. Ficava todos os dias ao pé da cama, concentrado na querida amiga... Sem tirar os olhos do ponteiro do relógio, contando os segundos para vê-la acordada novamente.
- Só me diga que ela vai sobreviver – sussurrou ele, enquanto suas mãos apoiavam os braços trêmulos.
- Eu admiro a sua força, seu olhar esperançoso. Todos os parentes, inclusive os pais de Noemi, já perderam as esperanças. Eu só posso afirmar que farei o possível para que ela fique boa.
- Noemi me ensinou a ter fé... E eu não vou desistir. Vou acreditar na recuperação dela até que eu a veja consciente de novo – disse ele, forçando as palavras a saírem.
Augusto foi até a janela entreaberta e encarou a quarta semana de mais uma noite preso naquele edifício... Esperando por Noemi – era justo, já que ela esperou por ele muito mais tempo...
Lembrou pela milésima vez do primeiro dia que eles se viram:
Estava chovendo forte em São Paulo. Aquele era um dia complicado para mais de duzentos moradores da zona sul... Era um dia de enxurrada.
Augusto voltava do trabalho, o trânsito completamente parado na marginal Tietê o deixou enfurecido. Ele havia combinado de jogar baralho na casa de um velho amigo, mas logo percebera que o programa não aconteceria, já que toda a cidade estava sofrendo com a terrível chuva.
As pessoas que felizmente não pertenciam aos duzentos moradores, atualmente sem casa por conta da chuva, sofriam de uma forma menos trágica, porém de mesmo terror emocional. Algumas estavam no meio do congestionamento, vendo a água subir e usando a buzina como meio de alívio para o estresse momentâneo, outras estavam em suas casas, sem luz, sem telefone... Ouvindo apenas o som devastador que acontecia lá fora, sentindo o coração acelerar com cada galho que se quebrava com o vento forte...
E havia também aquelas pessoas que se encontravam escondidas debaixo do cobertor, com medo dos fortes trovões e da imensa escuridão adiantada que viam quando olhavam pela janela de algum cômodo da casa...
- Dá para a madame pisar no acelerador? – gritou Augusto, descontando a raiva no volante novo, que comprara há semanas atrás.
A mulher do carro que estava na frente, se alterou com as estúpidas palavras de Augusto e num descuido, bateu o carro na traseira de uma velha Santana prata.
- Eu não acredito! – explodiu ele, colocando as mãos sobre a cabeça que balançava desaprovando o acontecido.
A porta do carro se abriu e a jovem mulher, de cabelos loiros e pele branca como o leite, saiu na chuva forte e em menos de três segundos, ela estava toda encharcada.
- Por favor, eu peço que me perdoe senhor, eu prometo que vou pagar o estrago – disse ela, avançando para a janela do motorista.
Ela falava rápido, seus olhos assustados deixaram o dono da Santana prata com pena.
- Eu acredito em você, não se preocupe... O carro nem amassou, foi só um arranhão aqui – interrompeu ele, depois de sair na chuva e averiguar a situação, apontando o dedo na direção do arranhão.
- Eu não entendo o porquê as mulheres insistem em ter carteira de habilitação, são todas umas desastradas mesmo – grunhiu Augusto, colocando a cabeça para fora do carro, enquanto a água lhe arrancava o gel do cabelo.
A jovem, que agora tremia de frio, encarou Augusto enfurecida, mas desistiu de responder aquele comentário machista e voltou para o seu carro, agoniada com sua roupa molhada.
A jovem era Noemi... Que no futuro próximo se tornaria a melhor amiga de Augusto.
- Você precisa ir embora agora... Noemi vai passar por uma avaliação importante e somente os médicos poderão ficar no quarto.
A enfermeira despertou Augusto daquele pensamento que ele amava recordar.
- Eu volto amanhã – disse ele, beijando a testa de Noemi, que permaneceu imóvel na cama, respirando através de aparelhos.
Ele conversava com a moça como se ela pudesse ouvi-lo, contava sobre os últimos acontecimentos, sobre os acontecimentos bizarros e até sobre política.
Os médicos temiam sobre o comportamento estranho e positivo dele, temiam que Augusto não suportasse se o pior acontecesse...
Augusto foi para casa pela primeira vez em um mês inteiro. Ele passara todos os dias de agosto dentro daquele hospital, instalado na sala de visitas e no mini hotel, que se encontrava no mesmo prédio.
Ele tinha uma noiva, a Amanda. Ela era muito compreensiva em relação à Noemi, ajudava Augusto em tudo o que podia... Ela também amava a moça doente... Que na verdade, era a melhor amiga do casal.
Augusto pensou em ligar para a noiva e combinar de sair com ela, mas seu cansaço era maior... Ele provavelmente aproveitaria o dia para dormir.
- Como está Noemi? Alguma melhora? – perguntou Jane, a mãe de Augusto.
Calmamente, ele pendurou o casaco no cabide, fechou a porta do guarda roupa e tomou fôlego para iniciar uma conversa, que infelizmente durariam muitas horas... Talvez.

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